Pré-concepção: o primeiro passo para uma gestação saudável
Em 19/10/2025
Planejamento antes de engravidar pode prevenir complicações e garantir mais saúde para mãe e bebê. Este é o alerta do ginecologista, obstetra e especialista em reprodução humana Dr. Guilherme Carvalho, que destaca como cuidados simples no período pré-concepcional fazem a diferença para uma gravidez segura e tranquila_
Mais da metade das gestações no Brasil não são planejadas. Uma pesquisa recente da Unicamp revelou que 65,7% das gestações no estado de São Paulo em 2023–2024 não foram planejadas, bem acima da média nacional, historicamente estimada em torno de 52% a 55%. Esse cenário mostra que muitas famílias iniciam a jornada da gravidez sem preparo prévio. Gestações não planejadas estão associadas a piores desfechos de saúde materno-infantil, incluindo menor adesão ao pré-natal, maior risco de partos prematuros e até menor chance de a mãe conseguir amamentar. Ou seja, quando a gravidez acontece de surpresa, a mulher pode não ter tomado medidas preventivas importantes, como começar a usar ácido fólico ou controlar uma doença crônica, antes de engravidar.
Dr. Guilherme Carvalho, ginecologista, obstetra e especialista em Reprodução Humana, enfatiza que a gravidez começa antes mesmo do teste positivo, no momento em que o casal decide cuidar da saúde para conceber. “Planejar a gestação é um ato de amor consigo mesma e com o futuro bebê, pois permite adotar antecipadamente hábitos que protegem mãe e filho. Por isso, divulgar orientações de pré-concepção de forma acessível é fundamental. O primeiro passo para quem deseja engravidar é procurar uma consulta médica pré-concepcional. Nessa avaliação, o profissional verifica o histórico de saúde do casal, solicita exames e orienta intervenções necessárias. Doenças crônicas pré-existentes, como diabetes, hipertensão arterial, obesidade ou problemas da tireoide, precisam estar controladas antes da gestação”, alerta.
Estima-se que uma em cada cinco gestações no Brasil seja de alto risco, muitas vezes devido a complicações de condições crônicas anteriores à gravidez. Por exemplo, até 2030, projeta-se que 29,7% da população brasileira estará obesa (32,2% das mulheres, um dado preocupante quando o foco é a gestação. “O excesso de peso causa desequilíbrio hormonal e pode levar a ciclos menstruais anovulatórios, dificultando a concepção e o desenvolvimento de uma gestação saudáve. Além disso, a obesidade e outras doenças aumentam o risco de complicações na gravidez, como diabetes gestacional e pressão alta (pré-eclâmpsia).
Por isso, tratar essas condições e adotar um estilo de vida saudável antes de engravidar ajuda a evitar problemas tanto para a mãe, quanto para o bebê. Não quer dizer que uma mulher que esteja no quadro de obesidade não poderá engravidar de um bebê saudável. Não se trata disso, mas sim de reduzir os riscos de saúde para ambos durante e pós-parto. “Manter hábitos saudáveis, estar com as vacinas em dia e também fazer uso de ácido fólico, com acompanhamento médico, são atitudes que contribuem significativamente para uma gestação segura”, reforça Dr. Guilherme Carvalho.
*Nutrientes essenciais: o papel do ácido fólico*
Entre as orientações pré-concepcionais, uma das mais destacadas é a suplementação de ácido fólico (vitamina B9). É recomendado que todas as mulheres que planejam engravidar iniciem o uso diário de ácido fólico pelo menos 1 a 3 meses antes da concepção, mantendo-o durante o primeiro trimestre de gravidez. Essa vitamina ajuda a prevenir malformações no feto, especialmente os defeitos do tubo neural, que afetam o desenvolvimento do cérebro e da coluna do bebê. No Brasil, estima-se que ocorram cerca de dois casos de defeitos de tubo neural para cada 1.000 nascidos vivos. A boa notícia é que o ácido fólico pode evitar até 70% dessas más-formações congênitas, quando tomado no período correto.
“O desafio é que, devido ao alto índice de gravidezes não planejadas, muitas gestantes só começam a tomar ácido fólico quando descobrem a gestação, possivelmente tarde demais. Idealmente, a mulher deve estar suplementada já no momento da concepção. Por isso, quem está em idade fértil e tem chance de engravidar deve manter uma ingestão adequada de folato, seja por suplementos ou pela dieta enriquecida. Outros nutrientes também são importantes, como uma alimentação balanceada, rica em verduras, legumes, grãos integrais, fontes de ferro e cálcio, prepara o organismo para sustentar a gravidez. Mais de 90% das mulheres chegam ao início da gestação com deficiência de pelo menos um micronutriente essencial. É importante o acompanhamento médico e nutricional para monitorar a saúde alimentar da futura gestante”, destacou.
*Principais cuidados pré-concepcionais recomendados*
Consulta e exames médicos: Faça uma avaliação pré-concepcional pelo menos três meses antes do teste de gravidez positivo. Se você quer engravidar em 2026, procure monitorar a saúde do casal a partir de agora. Atualize exames de rotina e trate eventuais problemas (como controlar açúcar no sangue, pressão arterial, saúde bucal, etc.). O médico também pode orientar sobre a suspensão de métodos contraceptivos na hora certa e o intervalo ideal entre gestações.
*Controle de condições crônicas:* Se você tem alguma doença crônica (diabetes, hipertensão, asma, distúrbios da tireoide, obesidade, etc.), ajuste o tratamento antes da gravidez. Isso inclui usar medicações seguras, alcançar um peso saudável e estabilizar a condição. Esse controle prévio reduz o risco de complicações e de gravidez de alto risco.
Ácido fólico e nutrição: Inicie a suplementação de ácido fólico conforme orientação médica (geralmente 400 mcg diários) pelo menos 3 meses antes de engravidar e mantenha até a 12ª semana de gestação. Além disso, adote uma dieta equilibrada, rica em nutrientes. Consuma frutas, vegetais, grãos e proteínas magras, assegurando boas reservas de ferro, cálcio e outras vitaminas. Evite dietas restritivas sem orientação, pois a desnutrição ou deficiências nutricionais podem afetar o desenvolvimento do bebê.
*Hábitos saudáveis:* Pare de fumar e evite bebidas alcoólicas e outras drogas antes e durante a gestação. Essas substâncias aumentam riscos de aborto espontâneo, malformações e parto prematuro. Modere o consumo de cafeína. Mantenha uma rotina de exercícios físicos moderados, conforme sua condição – estar ativa ajuda no controle do peso e melhora a saúde cardiovascular para a gravidez. Também procure dormir bem e controlar o estresse, pois o bem-estar geral contribui para a fertilidade e para uma gestação tranquila.
*Saúde emocional e apoio:* Cuide da sua saúde mental. Se possível, planeje a gravidez em um momento de estabilidade emocional e conte com apoio do parceiro, família ou grupos de apoio. Aspectos emocionais importam desde o início; sentir-se acolhida e preparada para as mudanças da maternidade faz a diferença. Envolver o parceiro nos preparativos – ambos adotando hábitos saudáveis e indo juntos às consultas – fortalece a parceria nessa nova fase.

